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Categoria: Pessoa
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Cáritas Souzza
Dependia só de mim para ir à escola quando meu pai por se encontrar ocupado no trabalho não podia nos levar até lá.
Caminhava quatro quadras para entrar na maré humana da parada de ônibus e ficar quietinha na sala de aula até a professora apanhar o giz, para iniciar o ritual certo e infalível de todos os dias.
Não incomodava para não ser incomodada. Falava nada para minha falta de assunto não transbordar. Era possuidora de uma timidez fora do comum, e devido a esse quadro de característica humana, tentava não chamar atenção dos colegas para não ser percebida, e não ser zombada por eles.
Fui assim nos dois primeiros anos da escola. No início da terceira série, minha mãe me chamou ao canto da sala de jantar, e disse que agora eu cuidaria da minha irmã caçula, pois ela entraria na primeira série e era de minha responsabilidade cuidar dela. Ao ouvir essas palavras que consistia em ordem, não conseguia mais me controlar diante dessa decisão de minha mãe.
Como eu poderia mostrar a minha irmã segurança? Como transmitir envolvimento com os colegas? Peguei-a pela mão e caminhamos juntas o trajeto de minha solidão. Antes conferi sua merendeira e expliquei como abria sua térmica e a duração do recreio. Lembro que avisei: o recreio dura metade da metade de um tempo de futebol. Ela fez sim, com a cabeça, compassiva. Mudas, cumprimos o mapa em linha reta. Vera era solta, decidida, com os cabelos muito lisos e um dente da frente a menos que surgia a mais em seu sorriso.
Um anjo de avental vermelho, diferente da minha retração. Na manhã nublada, não prestei atenção na aula, ansiosa por movimentos e aparições na sala do outro bloco. Fiquei em uma classe que me permitia enxergar vultos nas demais janelas. Contraía o olho direito para empurrar o esquerdo mais longe. Meu batimento cardíaco doía, como uma prova onde sequer intuía como começar o assunto. Não era prova, mas o dia da primeira responsabilidade. Nunca cuidei de ninguém, de repente lá estava eu, imbuída de deveres, ungida mãe de ocasião.
No recreio, fui procurar Vera e a percebi extremamente articulada com amigas, brincando de corrida e alheia à preocupação da responsabilidade a mim atribuída. Em um dia, Vera conseguira amizades que eu não fizera em três anos. Isso não me deu alívio, confirmou a suspeita do meu despreparo para a função de vigia. Despreparada para recolher as palavras de volta. Senti inveja de sua facilidade inata, inveja por não tê-la ensinado absolutamente nada. Eu tinha pena de mim, porém a pena de mim era o único sentimento que me consolava.
Mordi muito o lápis nos últimos períodos. Se lápis fosse queijo, não teria mais boca para gritar. Todo recreio era uma explosão. Não importava se a professora estava falando um tema importante, logo a interrompiam. O ranger das cadeiras era biológico, pontual, definitivo. Quando o sino transformou a porta em janela de incêndio, corri na frente para aguardar minha irmã na praça, em frente a escola, local em que combinamos o encontro. Em dias anteriores, saía em disparada para não ser acompanhada por perguntas de onde moro, o que faço de tarde e quem são meus pais.
Naquele meio-dia, permaneci observando as turmas deixarem ruidosas o pavilhão da escola. A vida dos outros parecia mais feliz do que a minha. Mais viva, mais pátio para correr, mais interessante. Reparava inclusive os movimentos bruscos dos pássaros, o deslizar monótono da cor. O que não vivia era mais meu.
Quinze minutos depois, a angústia concentrou a respiração. O pensamento tornou-se repetitivo e letal. Nada de minha irmã aparecer. Desci novamente a escola e vistoriei sua sala, o refeitório, a quadra esportiva e novamente nada. Tudo estava vazio como um lago recuado pelo sol.
Trinta minutos depois, desesperada, passei a rezar. Rezar de pé não adiantou. Pensei que seria ouvida se me ajoelhasse. Não podia voltar para a casa sem minha irmã. Encolhida no meio-fio, rezei, rezei, rezei e de repente eu já estava chorando no meio da reza vestindo o pai-nosso de ave-maria.
Pensei que não seria ouvida chorando. Alguém se apoiou nos meus ombros. Era minha mãe. Gritei que havia extraviado a Vera. Que não sabia da Vera!!! Ela reagiu com calma, como a não entender a gravidade do som. E me falou: - Ela está em casa. Estamos preocupadas é com você. Ai desabei no maior choro de minha vida!!! Constatei que eu é que havia me perdido, não a Vera. Fui para casa ainda chorosa, mas feliz por tudo ter dado certo.
E, no dia seguinte lembro bem de ter escutado, atrás da porta onde me encontrava, a minha mãe pedindo a minha irmã Vera, que na escola ela cuidasse de mim.

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Publicação:2005-07-09
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